Justificativa
No primeiro vídeo, Gelson Merísio afirma que a preferência dos catarinenses por Jair Bolsonaro em 2018 o levou a declarar apoio ao então candidato. No segundo, relembra que Lula ficou em primeiro lugar em quase todas as cidades catarinenses — na sua primeira eleição — e sintetiza sua trajetória na frase: “eu mudei, as pessoas mudaram”; embora a lógica pudesse ser resumida de forma inversa: “as pessoas mudaram, eu também mudei”.
A estratégia desloca o debate da coerência político-eleitoral para a coerência do comportamento do eleitor. Quando essa lógica encontra ressonância, especialmente entre os segmentos menos ideologizados do eleitorado, há uma tendência à redução da capacidade de exploração do “fator incoerência” por seus adversários.
Desconstrução de narrativas
No segundo vídeo, a campanha do pré-candidato procura expor contradições na comparação entre os governos Bolsonaro e Lula em relação aos investimentos do setor privado em Santa Catarina. Como exemplo, utiliza as previsões pessimistas feitas por Luciano Hang sobre a economia brasileira durante a gestão Lula, contrapondo-as ao desempenho da própria Havan nos últimos quatro anos, período em que a empresa inaugurou 18 lojas.
Confrontar as previsões de Luciano Hang não significa apenas afirmar que o empresário errou. É muito mais do que isso. Trata-se de desqualificar a fala de uma das figuras que se tornou símbolo do bolsonarismo durante os anos do governo Bolsonaro.
Ao utilizar fatos e resultados concretos para contestar previsões equivocadas, a campanha busca enfraquecer argumentos sem recorrer ao confronto ideológico direto, uma vez que, diante do desgaste natural da polarização ideológica, Jorginho Mello precisará oferecer mais do que uma autodeclaração de pertencimento à direita para manter a performance de 2022 e neutralizar o crescimento dos adversários.
Desideologização
Hoje, cerca de um terço do eleitorado diz não aguentar mais a polarização, mas ela sempre existiu e continuará existindo. Há nisso um equívoco conceitual que os marqueteiros já entenderam: o eleitor não está saturado com a polarização; o que causa desgaste é a polarização ideológica. Por isso, vê-se claramente que a proposta do pré-candidato apoiado por Lula é levar o debate de volta para a disputa de ideias, projetos e soluções concretas para os desafios do Estado, em vez da simples divisão entre campos ideológicos.
Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa, mas, enquanto João Rodrigues procura manter um atrito permanente com Jorginho Mello, desgastando o mesmo campo político, Gelson Merísio parece adotar uma estratégia distinta. Em vez de aprofundar a polarização, busca desideologizar o debate como forma de ampliar seu potencial de desempenho nas urnas.